César Augusto de Campos Rodrigues, oficial da Marinha, engenheiro hidrógrafo e astrónomo, marcou indelevelmente a Astronomia portuguesa e mundial na transição do séc. XIX para o séc. XX.

César Augusto de Campos Rodrigues nasceu em Lisboa a 9 de Agosto de 1836. Durante a sua infância e juventude frequentou o liceu e o Real Colégio Militar. A 29 de Agosto de 1851 assentou praça na companhia dos guardas-marinhas, como aspirante de 3.ª classe. Dois anos mais tarde, foi promovido a aspirante de 2.ª classe. A 4 de Agosto de 1853 foi nomeado para uma viagem de instrução ao Mediterrâneo na corveta ‘Porto’.

César Rodrigues completou o curso preparatório de Marinha na Escola Politécnica a 20 de Fevereiro de 1854, tendo sido promovido a aspirante de 1.ª classe em Julho do mesmo ano.

Em 1855 completou o curso da Escola Naval e, meses mais tarde, foi escolhido para criar uma estação naval em Macau até 22 de Janeiro de 1860. Esta viagem marcaria o início da manifestação dos seus interesses científicos.

Para auxiliar Mateus Maury, Campos Rodrigues, com apenas 19 anos, iniciou a elaboração de um diário náutico, em conjunto com José Feliciano de Castilho, durante o trajecto de 160 dias de Lisboa a Macau. As observações recolhidas foram consideradas “uma peça curiosa, está admiravelmente desempenhado e dá-lhe grande crédito (…)” pelo próprio Maury, considerado pai da Oceanografia moderna.

O trabalho desenvolvido na estação de Macau valeu-lhe um louvor pelo bom serviço prestado e pelo seu desempenho no resgate de embarcações portuguesas e, ainda, no aprisionamento de piratas.

ASTRONOMIA, A PAIXÃO DE UMA VIDA

Apesar de ter feito carreira na Marinha Portuguesa, o seu talento e génio excepcional manifestaram-se principalmente na Astronomia. Campos Rodrigues utilizava para seleccionar quais as estrelas a observar um processo de cálculo totalmente inovador, claro, exacto e eficaz.

O cientista concluiu o curso de engenheiro hidrógrafo em 1865 e, quatro anos mais tarde, era adjunto da secção astronómica da direcção dos trabalhos geodésicos por nomeação do General Filipe Folque, que reconheceu o seu talento. Em 1869, foi convidado a integrar o pessoal do observatório que estava a ser construído na Tapada da Ajuda, mas foi para Caminha trabalhar no levantamento da barra e porto dessa localidade, enquanto ajudante da direcção.

Os métodos e aparelhos desenvolvidos durante este período foram descritos no Curso de Topografia de Rudolfo Guimarães e Mendes de Almeida e publicados em 1899 e 1900. Os inúmeros dados recolhidos sobre marés e declinação magnética foram arquivados na Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos.

Em 1876, foi ordenado Cavaleiro da Ordem Militar de S. Bento de Aviz. E em 1878, foi proposto para subdiretor pela Academia de Ciências. Em 1890, é nomeado director e doze anos mais tarde foi promovido a Vice-almirante. Em 1908, foi-lhe concedida a Grande Cruz da Ordem de S. Tiago, da qual renuncia.

Apesar de toda a evolução tecnológica ao longo dos tempos, a herança de Campos Rodrigues está ainda presente no Observatório onde trabalhou. Em todos os aparelhos utilizados actualmente, existem marcas dos seus feitos que os tornam mais práticos, exactos e adequados às respectivas finalidades. Movido pelo seu espírito progressista e atento alterou e melhorou todos os aparelhos criados por si ao longo dos anos por sua própria iniciativa.

Entre os aparelhos desenvolvidos destacam-se: um diagrama de iris para regular a iluminação das oculares que, mais tarde, surgiram nas câmaras fotográficas, um revólver fotográfico para observar o trânsito de Vénus durante a sua expedição a Macau e o Círculo Meridiano de Precisão.

RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

O seu nome era tão reconhecido em Portugal como além-fronteiras. A sua fama foi-se difundindo entre especialistas da área. Na sessão de 19 de Dezembro de 1904, a Academia das Ciências de Paris decidiu atribuir a Campos Rodrigues o Prémio Valz (da Fundação Benjamin Valz), instituído para distinguir astrónomos que se evidenciassem pela qualidade dos seus trabalhos. Os seus contributos conquistaram um júri que incluía grandes nomes da ciência da época, como o matemático Henri Poincaré e o astrónomo Guillaume Bigourdan. A atribuição do prémio ao astrónomo português foi decidida por unanimidade.

O Almirante Campos Rodrigues faleceu aos 83 anos, no dia de Natal de 1919, vítima de uma doença repentina. Como não existiam notícias nessa tarde, ou na manhã seguinte devido à época tradicionalmente festiva, a notícia do falecimento passou despercebida até ao dia seguinte. O seu nome foi atribuído a uma rua da freguesia de Benfica.

REAL OBSERVATÓRIO DE LISBOA: O MELHOR DO MUNDO

Sob a direcção de Campos Rodrigues, o Real Observatório de Lisboa evidenciou-se no seio da comunidade astronómica mundial, por ocasião da oposição de Marte de 1892. Convidado a contribuir para uma nova determinação da paralaxe solar, o observatório lisboeta efectuou uma série de observações do planeta, que mereceram de William Harkness, astrónomo do Observatório Naval de Washington, o seguinte comentário: “são notavelmente completas, e terão grande utilidade”.

Em 1900, o Observatório de Paris lançou uma nova campanha para a determinação da paralaxe solar. A comunidade astronómica focou-se num asteróide baptizado com o nome Eros (asteróide nº 433). Cinquenta observatórios participaram e coube ao Observatório de Lisboa elaborar, juntamente com outros doze observatórios, um catálogo das estrelas que serviriam de referência para a observação de Eros. Cerca de 19 000 observações foram realizadas, das quais cerca de 3800 foram efectuadas no ROL. Os erros associados às observações de Lisboa foram os menores de todo o conjunto e nenhuma observação foi rejeitada.

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