Os comerciantes do Mercado de Benfica estão preocupados quanto ao futuro porque temem que as obras de remodelação anunciadas para 2022 afectem os seus negócios, com diminuição da procura e quebra de facturação. Por outro lado, acreditam que o projecto da Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai descaracterizar uma das praças mais populares da cidade, enquanto os fregueses estão preocupados com o impacto negativo das alterações à circulação na zona envolvente que diminui o estacionamento e aumenta o congestionamento de trânsito.

● Ao ‘FREGUÊS DE BENFICA’, a ‘Lisboa Ocidental SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana’, empresa municipal dona do projecto, esclareceu que se prevê uma intervenção faseada “permitindo o funcionamento do mercado em simultâneo”, pelo que não haverá “lugar à suspensão de actividade”. De acordo com a mesma fonte, ”será organizado um sistema de rotação entre obra e mercado em funcionamento, disponibilizando as áreas renovadas para a instalação dos lojistas, mantendo sempre o mercado em funcionamento, apesar dos necessários constrangimentos e bancas provisórias em rotação”. Entretanto, a SRU adianta que “não estão previstas compensações, uma vez que não se prevê nunca a perda de negócio”.

Sete milhões de investimento

A requalificação do Mercado de Benfica, que representa um investimento de sete milhões de euros, tem um projecto da autoria da OITOO Lda., segundo o qual se “procura uma solução urbana capaz de reclamar para a órbita do Mercado de Benfica um novo espaço cívico reconhecível, acessível, de vocação fortemente pedonal, capaz de integrar de forma partilhada as necessidades de atravessamento, de cargas e descargas e estacionamento necessárias” para o seu funcionamento “sem subalternizar o conforto do espaço público e modos suaves de mobilidade”.
Na memória descritiva, o projecto prevê a “unificação dos espaços envolventes num novo todo contínuo, procurando que o espaço envolvente ao Mercado integre o Jardim do Mercado e o novo estacionamento municipal previsto no interior do quarteirão”. No documento está previsto relocalizar o mercado de Levante, que ocupa actualmente o lado Sul do Mercado de Benfica. Com esta solução será criada uma nova plataforma, permitindo uma relação directa das lojas do perímetro interior com um espaço exterior”.
A empresa adianta que no perímetro exterior do edifício, serão relocalizadas as áreas de restauração dotadas de esplanadas. O estacionamento municipal “ficará na zona de actual descampado a nascente da Rua Nossa Senhora do Amparo”, para onde estão previstos 111 lugares. Uma novidade: será o primeiro parque da cidade com iluminação auto-suficiente. Esta empreitada, em curso, custará cerca de 300 mil euros. Na memória descritiva defende-se que “o carácter de equipamento de proximidade do mercado e as sinergias com o novo estacionamento municipal previsto, justificam que a visão para este lugar assente numa lógica que privilegie os modos suaves de acessibilidade”.

Alteração de perspectivas gera preocupação

A requalificação do mercado, prometida há anos, não escapa a críticas de despesismo, risco de perda de identidade e suspensão de actividade dos comerciantes. A intervenção no Mercado de Benfica e a requalificação da zona envolvente estão previstas desde 2014. O início da remodelação, considerada “urgente” por Inês Drummond, então presidente da Junta e actual assessora de Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, chegou a estar prometido para 2017. Na altura, a autarca revelou que o investimento seria de dois milhões de euros, muito abaixo dos actuais sete milhões.
Contudo, registam-se mais alterações, principalmente quanto à requalificação da zona envolvente. O projecto actual prevê a transformação do troço que liga o Mercado ao Jardim adjacente numa artéria pedonal e a implementação de sentido único na Rua Nossa Senhora do Amparo. Um parecer da Junta de Freguesia, datado de 4 de Novembro de 2014 e assinado por Inês Drummond, defendia o contrário: “há que referir que a Rua Nossa Senhora do Amparo, Rua Olivério Serpa e Rua João Frederico Ludovice são artérias com relevância na mobilidade e circulação dos residentes, sendo que a alteração proposta implicaria grandes congestionamentos de tráfego na Av. Grão Vasco e Rua Emília das Neves”, defendendo a manutenção da actual configuração do estacionamento entre o Mercado e o Jardim, proposta pela JFB, “garantindo assim as questões logísticas associadas ao funcionamento do mercado Levante”.
O parqueamento automóvel, cuja escassez e desordenamento é dos aspectos mais criticados por comerciantes e clientes, vai ser reorganizado. Para José Antunes, morador na freguesia e activista local, “é evidente que vão aproveitar esta suposta ‘reabilitação’ para mexer na estrutura viária, reduzir o estacionamento e infernizar um pouco mais a vida de quem vive na zona e de quem vem de propósito para a praça”. Uma das críticas são os impactos causados pelas “alterações desastrosas na via pública, com consequências negativas na estrutura viária e no estacionamento, leia-se menos lugares e maior congestionamento”. Em 2015, o estacionamento ilegal na zona atingia os 30%, principalmente aos sábados, dia de maior afluência ao Mercado de Benfica, segundo a autarquia. Um levantamento feito pelo ‘FREGUÊS DE BENFICA’ em 2018 junto de todos os comerciantes do Mercado revelou que a maioria é contra a implimentação de estacionamento tarifado na zona, com a justificação que “afastará ainda mais os clientes”.
Outras questões devem-se aos receios que advêm do histórico das requalificações dos Mercados de Lisboa preconizadas pela CML que resultam na descaracterização de ambientes até então mais populares. O Mercado de Benfica vende um pouco de tudo: peixe fresco e congelado, legumes, fruta, carne, bebidas, flores, plantas e artigos de jardinagem, vestuário, sapataria, têxteis para o lar, bijutaria e quinquilharias. Para muitos, é obrigatória uma visita semanal para comprar, passear e conviver. Para além da diversidade de oferta, o atendimento e as relações entre comerciantes e clientes são pontos fortes de um local onde se vivem as regras da oferta e procura. Estabelecem-se laços de amizade e de familiaridade, o que faz da visita à ‘Praça’ uma tradição que passa de geração em geração em muitas famílias lisboetas.

Mercado de Levante: convivência difícil

Nos anos quarenta, a produção da freguesia, que era uma zona rural, mostrava-se no mercado do Levante junto ao café Nilo e, mais recentemente, na Av. Grão Vasco, em frente à entrada do Parque Silva Porto (Mata de Benfica). Esta tradição justificou a construção do Mercado de Benfica, iniciada em 1970 nos terrenos da antiga Quinta da Casquilha. O equipamento abriu portas a 19 de Outubro de 1971, tendo sido o último mercado municipal a ser inaugurado antes do 25 de Abril de 1974. Com mais de 5500 m2, o edifício foi projectado pelo arquitecto Fernando da Costa Belém, sendo constituído por uma grande nave circular ao longo da qual se dispõem em círculos as várias categorias de produtos e lojas. Cada uma das suas três entradas é decorada por uma estátua em relevo.
Da observação da maquete do Mercado, retira-se que o edifício não foi terminado, faltando construir a parte correspondente à zona exterior onde hoje é realizada a feira. Não obstante, em 1996, a venda ambulante foi integrada na Praça, através da construção de uma estrutura provisória adjacente ao edifício, na entrada sul, preenchendo uma área coberta total de 1.450 m2 para os comerciantes de produtos não alimentares. Esta solução para a venda ambulante tem gerado alguns protestos dos moradores da zona, principalmente devido ao lixo que é deixado na via pública depois do fecho da feira e a falta de uma fiscalização eficaz ao nível do estacionamento das cargas e descargas, principalmente aos sábados. Agora, a feira ambulante vai ser deslocalizada para uma zona menos nobre do mercado. A SRU esclareceu que o mercado de Levante vai passar para o lado Nascente do edifício, “numa construção paralela ao espaço actual de cargas e descargas com ligação directa ao mercado”.

Ideia com 50 anos

A entrada Sul que dá para a Rua Oliveira Serpa e Rua Nossa Senhora do Amparo, seria o principal acesso ao mercado e deveria albergar serviços e lojas âncoras, como restaurantes e cafés. A ideia, no papel há 50 anos, acaba de ser repescada, agora com argumentos que têm a ver com as tendências modernas dos mercados urbanos, que combinam o comércio tradicional com novos usos mais adaptados às exigências dos consumidores. A Junta de Freguesia garante que a modernização e reorganização do mercado e dos seus espaços comerciais vão manter “a sua identidade própria, sem perder quaisquer valências actuais”, enquanto a SRU salienta que o projecto “valoriza de forma muito cuidadosa a identidade do edifício, reabilitando harmoniosamente o mercado e modernizando-o de acordo com as necessidades previstas no Programa Preliminar, definidas pela Junta de Freguesia e pela entidade gestora dos mercados”, acrescentando que “é uma obra desejada, necessária e indutora de benefícios para lojistas e frequentadores”.
Segundo a autarquia, hoje o Mercado de Benfica tem 2.061 m2 de venda interior e 740 m2 de venda exterior. O mercado conta com 65 operadores do ramo alimentar e 153 operadores não alimentares. A diminuição de comerciantes ao longo dos anos, visível pelo crescente número de lojas ou bancas vazias, deve-se a diversos factores: falta de continuadores dos comerciantes de idade avançada, política da Junta de Freguesia para a captação de novos operadores, entre outros condicionalismos.
Não obstante, a autarquia garante que a taxa de ocupação atinge os 91%. Por sector, prevalecem comerciantes de artigos de vestuário e calçado, bijuterias e quinquilharias (151), seguidos dos vendedores de hortofrutícolas (25), peixe fresco (15) e talhos (10), entre outros com menos operadores. A média de entradas diárias é de duas mil pessoas, maioritariamente entre os 40 e 65 anos (55%), seguidas da faixa com mais de 65 anos (29%) e menos de 40 anos (16%).

Junta de freguesia gere

Em 2014, a gestão da “Praça” foi transferida para a Junta de Freguesia de Benfica, que na altura investiu 250 mil euros nas áreas técnicas e nos equipamentos de frio, que estavam degradadas. Ao longo do tempo, foram realizados vários melhoramentos, como a remodelação da rede de águas, construção de rampa regulamentar para pessoas com mobilidade condicionada, criação de instalação sanitária para deficientes, criação de espaço para recolha selectiva de lixo, reparação do pavimento do cais de cargas e descargas, recuperação de paredes interiores e exteriores, e remodelação e recuperação da cobertura exterior do mercado, remodelação das instalações sanitárias, instalação de cubas e contadores de água nos lugares de venda e substituição das grelhas de escoamento de águas.
No entanto, falta a modernização das bancas e das áreas administrativas, a renovação de toda a estrutura e o seu embelezamento. Tem sido também prometida a requalificação total do equipamento, assim como da zona envolvente. Só agora, em ano de eleições autárquicas, foram divulgadas imagens do projecto com nova promessa: as obras começarão em 2022.f
REDACÇÃO

 

 

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