EntrecamposAté ao momento, as escavações arqueológicas em curso e sem prazo para terminar não justificam alterações ao projecto urbanístico da ‘Operação Integrada de Entrecampos’. Os vestígios, contudo, são importantes e estão a ser registados.

● Os vestígios arqueológicos encontrados nos terrenos da antiga Feira Popular não justificaram alterações ao projecto urbanístico no âmbito da chamada ‘Operação Integrada de Entrecampos’.
A Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) referiu ao ‘FREGUÊS DE AVENIDAS NOVAS’ que “os vestígios arqueológicos mais antigos (fases de ocupação moderna, romana e pré-histórica) encontram-se muito afectados, pelo que a DGPC considerou que não se revestem de relevância patrimonial que justifique a introdução de alterações ao projecto (ao nível da diminuição das áreas de cave, por exemplo) para efeitos de preservação in situ ou integração e musealização no futuro empreendimento”.
Não obstante, a DGPC não desvaloriza a importância dos vestígios: os achados assumem “uma enorme importância no panorama do conhecimento sobre a ocupação antrópica desta área da actual cidade de Lisboa, até recentemente considerada de génese mais contemporânea, pelo que determinou a realização dos extensos trabalhos de escavação arqueológica em curso, os quais procuram a recolha de toda a informação disponível tendo como objectivo último a publicação e divulgação do sítio, quer ao nível científico, quer ao nível do público em geral”.
A Fidelidade, detentora dos terrenos em causa, sublinha que as escavações em curso, realizadas em articulação com a DGPC e segundo as medidas legais, permitirão “a caracterização e registo de todas as realidades arqueológicas existentes na área em análise, cumprindo-se assim com o princípio legal da conservação pelo registo”.
Tal princípio “consiste na preservação das realidades arqueológicas identificadas, por intermédio do seu registo nas suas mais variadas dimensões (registo fotográfico, registo topográfico, registo gráfico, registo fotogramétrico, memória descritiva e eventualmente vídeo)”, esclareceu a empresa. Tais registos “incorporarão o relatório arqueológico a entregar à tutela, sendo as realidades arqueológicas a que se aplique esse princípio legal, alvo posteriormente de desmonte, de modo a permitir a viabilização da obra”, acrescenta a Fidelidade.
Caberá à DGPC “solicitar outras formas de preservação, nomeadamente a conservação in situ das realidades arqueológicas identificadas”, salienta a Fidelidade, sublinhando que no caso presente “às realidades arqueológicas até ao momento identificadas será aplicado o princípio legal da conservação pelo registo”.
Quanto à duração das escavações, a DGPC refere que não há prazo para a conclusão dos trabalhos arqueológicos, “tendo os despachos emitidos estabelecido somente a obrigatoriedade de comunicação das datas de início, de eventuais interrupções e de conclusão dos trabalhos arqueológicos”. Todavia, após a execução dos trabalhos “e aprovação dos respectivos relatórios por parte da DGPC, estão reunidas as condições para a execução das obras de construção civil previstas para o local”, afirma a Fidelidade.

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Entrecampos: várias cronologias
As escavações decorrem desde 2019, incidindo sobre os topos Sul (área A do projecto) e Norte (área B) dos terrenos em causa. Segundo a DGPC, os trabalhos arqueológicos foram desenvolvidos em duas fases: “a primeira, de diagnóstico da presença de vestígios ou bens arqueológicos e caracterização científico patrimonial destes”, já está concluída; a segunda, ainda em curso, somente no topo Sul, implica a “escavação arqueológica integral da área”.
A DGPC salienta que dada a natureza dos vestígios “não se confirmou a existência de uma necrópole romana”, apesar de estar documentada “a presença de uma área de carácter habitacional desta época”. O estado muito preliminar dos trabalhos não “permite adiantar informação fundamentada sobre datações ou funcionalidades”, refere.
Por toda a área estão disseminados “materiais atribuíveis à pré-história recente (Neolítico Final-Calcolítico, viragem do 4.º para o 3.º milénio A.C.)”, registando-se “em depósitos remobilizados de origem aluvionar ou coluvionar, aparentando estar relacionados com o sítio arqueológico localizado a Poente, no designado Loteamento das Forças Armadas”, esclareceu a DGPC.
A Fidelidade adianta que “as imagens revelam um conjunto de estruturas em positivo, edificadas em alvenaria de pedra e argamassa de cal de cronologias moderna e contemporânea”, sendo que “a grande maioria das estruturas visíveis são efectivamente de cronologia contemporânea (séculos XIX)” e que “num plano inferior podem observar-se estruturas de cronologia moderna, também em alvenaria de pedra e um conjunto de fossas, escavadas no sedimento argiloso existente, também executadas em período moderno (séculos XVII/XVIII)”.
“Sob estas realidades e já muito afectadas por ocupações mais recentes, podem observar-se alguns pisos e restos de muros resumidos às suas fundações de cronologia romana (vestígios ainda não intervencionados)”, refere a empresa. Apenas no topo Sul (área A), “foi identificada uma área de ocupação humana que de forma muito preliminar está a ser associada ao Paleolítico”, mas a escavação “ainda não foi iniciada”.

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Sondagens prévias
O blogue ‘Toponímia de Lisboa’, da Câmara Municipal, lembrava em 2019 que “no subsolo de Entrecampos, no espaço do antigo Mercado Geral de Gados, que a partir de 1961 se transformaria na antiga Feira Popular de Lisboa – definida entre a Avenida da República e a Avenida 5 de Outubro, com a Avenida das Forças Armadas a norte e a Rua Cordeiro de Sousa a sul –, foram recolhidos indícios da possível existência de uma necrópole romana, provavelmente dos séculos I a III, no decorrer de obras de requalificação do espaço, ocorridas entre 1902 e 1903”.
Em função deste relato, “a realidade arqueológica descrita motivou a classificação do espaço da antiga Feira Popular com o Nível III de Protecção do Plano Director Municipal em vigor”, obrigando a que a operação urbanística de Entrecampos tivesse sido “precedida por uma campanha de sondagens arqueológicas prévias, na sequência das quais foram confirmadas as suspeitas de existência de vestígios ocupacionais da época romana, mas também de outros períodos históricos, anteriores e posteriores, no que parece consubstanciar-se numa longa ocupação, talvez não sequenciada, deste espaço, aparentemente desde a pré-História”, refere a CML.f
JORGE ALVES

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