Da freguesia central ao central na freguesia

● A Ana e a Maria são amigas. Da janela do quarto da Ana vislumbra-se um bonito jardim público, onde diariamente, trabalhadores da Junta de Freguesia cuidam das plantas e das árvores, varrem e regam, deixando um agradável cheiro a flores e terra molhada todas as manhãs. A Maria tem vista para um parque de estacionamento. Não pode abrir a janela porque a poluição não lhe permite. Dizem, há vários anos, que ali vai nascer uma Praça, mas na verdade, os velhos paralelepípedos, que tanto fazem trepidar os carros que por lá passam não a deixam dormir, apenas são substituídos por enormes buracos.
A Ana trabalha perto de casa, e diariamente percorre as ruas da freguesia, numa cadeira de rodas. Dá gosto vê-la, todas as manhãs, com vontade de conquistar o mundo, a percorrer passeios largos, com acesso seguro e confortável para as passadeiras, com calçada uniforme e limpa. A Maria também não mora longe do trabalho, e percorre a freguesia a pé. Não é fácil conseguir deslocar-se, principalmente porque empurra o carrinho do bebé por passeios íngremes, estreitos, com buracos, dejectos de animais e lixo variado no chão.
À noite, no regresso a casa, a Ana percorre as mesmas ruas, iluminadas e movimentadas. A Maria, quando regressa a casa, tem que percorrer ruas escuras, sujas, com prostitutas em cada esquina, sendo várias vezes seguida e abordada por homens dentro de carros, o que a deixa desconfortável e cheia de medo.
A Ana, num período mais difícil da sua vida, necessitou de apoio social e pediu ajuda na sua Junta de Freguesia. Nessa altura foi-lhe atribuído um cabaz alimentar que muito a ajudou. A Maria também já precisou de apoio alimentar, mas a sua Junta canalizou o dinheiro de cabazes alimentares para oferecer tambores a uma escola de outra freguesia.
A Ana todas as manhãs encontra o presidente da sua Junta de Freguesia. A Maria nunca viu a presidente da sua Freguesia, mas todas as manhãs encontra três mendigos a pedir esmola a poucos metros da sede da sua Junta.
No dia em que a Ana foi visitar a Maria, demorou uma hora para encontrar estacionamento. Para chegar a casa da Maria teve de ir pela estrada, porque a cadeira de rodas não cabia no passeio, viu carros em segunda fila, carros em cima do passeio, inúmeros buracos na estrada e no passeio, e só com a ajuda de um transeunte conseguiu subir o alto passeio com a sua cadeira de rodas.
Enquanto as duas amigas jantavam, ouviram o alarme de um carro. Da janela puderam ver que tinham assaltado o carro da Ana, partindo-lhe o vidro. “Maria, por favor chama a Policia”, pediu a Ana. A Maria telefonou, mas do outro lado disseram-lhe que a esquadra da freguesia era na Penha de França, por isso iam demorar a chegar.
“Maria, tens que informar os teus vizinhos, na página de Facebook da tua Junta de Freguesia, que andam a assaltar carros aqui na rua”, disse Ana. “Não posso, Ana, a minha Junta de Freguesia bloqueou-me das redes sociais depois de eu ter feito um comentário a uma publicação sobre a falta de limpeza na freguesia. É a censura do Século XXI.”, respondeu Maria bastante desanimada.
A Ana sabe o que é central na sua freguesia: as pessoas.
E a Maria? A Maria, vive nas Avenidas Novas…f

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