A única ‘Loja com História’ da freguesia nunca recorreu aos financiamentos da Câmara Municipal de Lisboa (CML), mesmo em tempo de pandemia, apesar de admitir que o confinamento cria dificuldades. Mas conta com os clientes pacientes que continuam a frequentá-la para enfrentar a crise.

● A única ‘Loja com História’ da freguesia, a Casa de Cafés Solposto, não escapou ao efeito económico da pandemia. Se a situação durar muito mais tempo, Sérgio Solposto, filho da proprietária, Pureza Solposto, e gerente do negócio, admite “dificuldades acrescidas”, mas continua empenhado em manter a actividade, juntamente com a mulher, Rita, e Amélia, outra colaboradora. Os três formam o corpo de colaboradores da loja. A Mãe continua a ser a proprietária e “será enquanto for viva, por opção nossa”, acentua Sérgio.
O encerramento por seis semanas, entre Março e Abril de 2020, gerou prejuízo, mais acentuado porque abrangeu o período da Páscoa. Durante o confinamento, dada a dimensão da loja, o espaço só permite a presença de um cliente de cada vez, circunstância que tornou impossível recuperar as vendas até 31 de Dezembro. Em condições normais cabem cinco clientes.
“Felizmente, os clientes que fazem parte da ‘história humana’ da loja continuam a frequentar o estabelecimento. Com muita paciência, esperam na rua pela sua vez, ajudando assim a superar esta crise que continua por 2021”, refere Sérgio Solposto.
Apesar do investimento em acrílicos, que “protegem totalmente os clientes e os funcionários, criando uma zona segura, as dificuldades continuam com o confinamento actual e as vendas a caírem ainda mais”, explica.

Mudanças através dos tempos
Conhecida até há pouco tempo por ‘Casa de Cafés Laço’, sobrenome do fundador, a designação mudou em 2015 para ‘Solposto’. Esta loja terá sido a primeira casa de cafés em Benfica, e é actualmente a única na zona. Instalada sempre no mesmo local, embora tenha mudado de imóvel, a data de inauguração remonta a 1949, que corresponde à entrada de Pureza Solposto no negócio que acabou por comprar ao fundador. Não obstante, sabe-se que a loja é mais antiga.
Uma curiosidade: no entendimento do antigo patrão, ‘Pureza’ era um nome pouco comercial. Dito e feito: a Mãe de Sérgio Solposto, utilizou o nome ‘Teresa dos Cafés’ e com o tempo ficou conhecida.

Pequena grande história
Em 2016, o estabelecimento adquiriu o estatuto ‘Loja com História’, para o que contribuiu o interior da loja, original desde o início, os moinhos de café e acessórios. Espaço de pequenas dimensões, com uma área de venda de cerca de 9 m2 e um armazém com igual área, dedica-se à venda de chás de mesa, cafés, biscoitos, chocolates, bombons, “mercearia fina” a granel, como se dizia antigamente. E também algumas plantas medicinais.
Por opção, os proprietários nunca pediram subsídios a que poderiam candidatar-se em função desse estatuto. “Para nós, o mais valioso é termos o autocolante ‘Lojas com História’ e sermos reconhecidos carinhosamente pelos clientes e também pela CML: o resto é trabalho”, afirma Sérgio Solposto. Nem com a pandemia recorreram a algum apoio especial passível de ser atribuído devido a esse estatuto.
Para o gerente, com 57 anos e longe da reforma, a loja é a sua vida. Nascido e criado em Benfica, ajudou os pais desde criança. O pai, já falecido, foi funcionário da Carris, mas acabou por se juntar à mulher nos ofícios da loja. Depois da tropa, na casa dos 20 anos, Sérgio juntou-se de vez ao negócio. Com os anos, os pais foram cedendo o controlo do negócio ao filho que, entretanto, casou, tendo hoje uma filha. “Ela é engenheira”, revela Sérgio com orgulho. Por agora, nada indica que ela siga as pisadas dos pais e avós. “Encaro esta situação com naturalidade” conforma-se o nosso interlocutor, deixando a frase: “ela tem a sua vida”.

Clientes antigos e fiéis
Peremptório, Sérgio considera que “são os clientes que fazem a casa”. Alguns são antigos, do tempo da mãe, hoje octogenária, outros são filhos de segunda geração e outros ainda clientes pontuais. Nalguns casos, são antigos colegas seus da escola Pedro de Santarém, que se recordam dele. Mas a clientela não se resume a Benfica. Em condições normais, “ao Sábado de manhã, vêm clientes de Cascais, Santarém, Torres Vedras, Setúbal, entre outras localidades, que aproveitam a deslocação a Lisboa para vir à loja abastecer-se”. Muitas vezes, levam produtos para vizinhos ou amigos. São antigos moradores da zona ou seus descendentes que, entretanto, foram residir para a cintura exterior de Lisboa.
Sérgio nota que “há uma geração mais nova, na casa dos 40 anos, que está a redescobrir o prazer do café”, procurando paladares genuínos. “Estão a cansar-se dos cafés fabricados, que sabem sempre ao mesmo e todos iguais”, refere o gerente, acrescentando que preferem “cafés torrados a lenha que têm nuances e alma” tanto das pessoas que torram como das pessoas que vendem. Na ‘Casa de Cafés Solposto’ podem obter essa satisfação, até porque “procuramos ir ao encontro das suas preferências”.
Num espaço tão exíguo, não é possível armazenar grandes quantidades de produto, mas se for encomendado para determinado dia, a loja satisfaz o pedido. Para esta fidelização contribui a relação quase pessoal que a loja mantém com os clientes. Ao contrário das grandes superfícies, ”onde as pessoas são números”, na loja “o património são as pessoas”, refere Sérgio. A este propósito, lembra uma história: “recordo que a minha mãe chegava a receber clientes no Dia de Natal a quem tinha acabado o café e que pediam para lho vender…e ela, no Dia de Natal, vinha à loja satisfazer o pedido do cliente”, conta. Alguns clientes consideram a loja “a sua despensa”, onde podem encontrar o que procuram, diz. Todavia, reconhece que os tempos são outros e que já são menos os dias em que clientes regulares, como foi a família Lobo Antunes, frequentam a loja, mantendo uma relação que hoje é difícil de encontrar. Apesar dos clientes que ainda mantêm uma certa familiaridade com a loja, “as pessoas, em geral, são mais distantes, menos ligadas, o que me causa uma certa tristeza”, refere Sérgio Solposto.f

JORGE ALVES

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