● Carcavelos é considerada o berço do graffiti nacional. Em 2015, Nomen, Ram e Utopia, artistas pioneiros deste género de arte fundaram o colectivo “Double Trouble Crew”. Actualmente, organizam visitas guiadas por diversos locais da freguesia que foram intervencionados pelos “graffiters”. Não obstante, os artistas queixam-se da falta de apoio. O “FREGUÊS DE CARCAVELOS E PAREDE” (FCP) conversou com Nomen que se revelou descontente em relação à forma como a sociedade encara os graffiters: “são muito poucos os mecenas portugueses dispostos a apoiar os artistas”. Perante as dificuldades, os artistas de rua voltam-se para o mercado externo.
FCP: Carcavelos foi pioneira na arte urbana. Ainda está na vanguarda do “graffiti” em Portugal?
Nomen: Sim, claro. A freguesia conta com novos muros de alguns dos melhores artistas de graffiti portugueses e mundiais, como Brayone, Mosaik, Nomen, Youth, Chureone, Utopia, Ram, entre outros.
FCP: Os aspectos artísticos superaram o lado marginal que, por vezes, foi atribuído a esta forma de expressão artística e que chegou a gerar alguns anticorpos sociais. Como antevê o futuro do graffiti?
Nomen: O graffiti caminha para uma maior aceitação por parte do público em geral. É certo que continua a haver algum vandalismo à mistura, mas a mancha da qualidade parece lentamente ser maior.
FCP: Muitos graffiters transformaram-se em empresários artísticos. O que mudou nos últimos anos neste domínio?
Nomen: Poucos artistas conseguiram viver do seu ofício. Entretanto, o advento da internet, das redes sociais e do marketing digital, tornou-se uma ferramenta que possibilitou diferentes “níveis” de sucesso a alguns dos artistas. Por norma, quando o tema da intervenção é uma encomenda artística, o trabalho é remunerado.
FCP: No ano passado, comemoraram-se os 30 anos do “graffiti” em Carcavelos. Este ano, está a ser planeada alguma iniciativa?
Nomen: De momento não, até porque o mural realizado na altura foi a título gracioso para toda a população poder apreciar e retirar algum proveito de um bem-estar visual. Os investidores portugueses são poucos e tímidos, mas começam a dar os seus primeiros passos no mercado do coleccionismo. Estamos algo desiludidos quando a Pátria não quer saber, nem aposta na nossa arte.
A este propósito, talvez devêssemos merecer poder contar com apoio financeiro, por parte de alguma entidade ou mecenas para fazer o 31.º aniversário, o que não aconteceu até agora. Não tem de ser necessariamente a Câmara Municipal de Cascais ou a Junta da união de freguesias de Carcavelos e Parede, pois cederam o espaço da intervenção e ajudaram na logística e andaimes no ano passado. Nós oferecemos a nossa arte, tempo, dedicação e latas de tinta. Estamos gratos a estes autarcas porque possibilitaram uma óptima oportunidade de deixar a nossa arte de registo livre dos autores e sem obedecer a qualquer imposição.
No entanto, defendo que as autoridades devem dar mais oportunidades à criação de murais sem imposição de tema e remunerar os artistas por valores justos.
FCP: Não obstante, o apoio daquelas entidades, o mercado é ainda um nicho Existem mecenas a apoiar o trabalho dos “graffiters” portugueses?
Nomen: Os mecenas são poucos. Ninguém investe na arte de rua. Pelo contrário, os particulares só querem beneficiar da requalificação dos seus espaços através das obras de arte.
FCP: O sonho de se transformar o “graffiti” numa arte aceite socialmente parece ser ainda longínquo. É compensador ser “graffiter” em Portugal?
Nomen: Com o passar do tempo, alguns sonhos vão-se tornando realidade, mas de momento não tenho nenhum em concreto que queira partilhar. Para quem trabalha arduamente, a arte urbana pode ser o sustento do artista.
FCP: A Double Trouble Studio (DTS) foi fundado em 2015. Quais os projectos que desenvolve? Nomen: A DTS tem desenvolvido trabalho internacional com a exportação de de trabalhos dos artistas Nomen, Ram e Utopia para o mundo do coleccionismo e galerias do graffiti de autor em formato tela. Coleccionadores de todo mundo compram-nos dezenas de telas mensalmente. Confesso que não apostamos muito no mercado interno.
FCP: A DTC assume-se como um centro difusor da arte urbana. Que serviços disponibilizam?
Nomen: O Double Trouble Studio é formado pelos artistas visuais Nomen, Ram e Utopia e temos um espaço próprio em Carcavelos. Em termos de serviços, oferecemos a pintura artística de murais, desde que devidamente remunerada, e a encomenda respeite os nossos gostos e afinidades pessoais. Também, alugamos o nosso espaço único artístico para filmagens e spots publicitários, vídeo making, fotografia, entre outras actividades.
Ainda organizamos visitas guiadas ao estúdio e os interessados podem comprar telas artísticas. Além disso, o Luthier António Duarte tem aqui a sua oficina de construção de guitarras portuguesas (Fado de Coimbra e Lisboa). Por isso, quem quiser ver, apreciar e comprar uma guitarra portuguesa genuinamente feita à mão tem uma boa oportunidade de o fazer.f

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