Mais do que um fecho de loja, o encerramento da padaria no Mercado do Bairro Santos é um sintoma da doença que afecta o comércio tradicional. Espaços requalificados, concorrentes fortes e clientes menos fidelizados desafiam sítios, hábitos e comerciantes num duelo geracional.

A padaria do Mercado do Bairro Santos encerrou no passado dia 13 de Julho. Motivo: perda de receitas, superior a 50%, segundo a funcionária da loja, na sequên-cia das obras de remodelação de que aquele equipamento foi alvo. Embora não afecte todos por igual, o fecho da padaria é lamentado pela generalidade dos lojistas e clientes. A má notícia é que poderá não ser o último. A cafetaria e restaurante, logo ao lado da padaria, também admite perda de negó-cio, correndo “o mesmo risco”, afirma Dina, que ali trabalha e está no mercado há 25 anos. Igual destino poderá ter a churrasqueira, no mesmo piso. Aníbal Teixeira, dono do negócio, também re-conhece prejuízos, desde a reinstalação, mas vai improvisando. ”O que havia de fazer aos 60 anos?”, questiona.A comida no piso de baixoAlém dos prejuízos, o que têm estas lojas em comum? São todas do ramo alimentar e situam-se no primeiro piso, onde nunca deveriam estar, segundo os seus responsáveis e a generalidade dos lojistas. “Tudo foi mal feito desde o início”, refere Dina. Numa zona demograficamente envelhecida, uma padaria no piso de cima dissuade clientes de subir as escadas ou mesmo de utilizar o elevador, no qual nem todos confiam e que já esteve algumas vezes fora de funcionamento. Para agravar a situação, há quem venda pão no piso de baixo, como o supermercado Minipreço e uma charcutaria. Apesar de o pão da padaria ser diferente do pão do “Minipreço” e ter os seus fiéis, mais tradicionais, a fidelização não bastou para manter o negócio.

Mau para todos

Entre o “não me aquece nem arrefece” de alguns e o “acho mal o fecho” de outros, num ponto os lojistas concordam: o encerramento de um espaço é mau para todos. Como refere Teresa Lopes, florista, “apesar não me afectar directamente, o fecho de uma loja é sempre mau e dá mau aspecto”. Ou como diz o responsável pelo centro de cópias, no piso de cima: “não afecta o meu negócio, mas se as pessoas já pouco sobem, agora terão menos uma razão para subir”. Esta opinião é partilhada pelo barbeiro, seu vizinho no mesmo piso.Pelo meio, correm ainda outras razões. A padaria fechou por causa da concorrência do “Minipreço”, dizem uns. Falta publicidade, queixam-se outros. As pessoas procuram pouco às lojas de cima, “onde é preciso ter uma grande capacidade de gestão para vingar”, argumentam outros tantos.

Junta reconhece concorrência

Indirectamente visada com as queixas, Ana Gaspar, presidente da Junta de Freguesia das Aveni-das Novas (JFAN), gestora do mercado, defende-se, afirmando que só tomou conhecimento do fecho pelo Facebook e pelo aviso no vidro da padaria. “O argu-mento deles é válido”, reconhece. Segundo a JFAN, o anterior Executivo da Junta, quando redistribuiu os espaços, decidiu que algumas lojas de produtos alimentares ficariam no piso de cima. A autarca acrescenta que os comerciantes assinaram um docu-mento concordando com a sua nova localização no mercado. Herdeiro de um processo já negociado, o actual Executivo refere que se reuniu com os lojistas e apelou a uma renegociação dos espaços, de modo a que negócios que não fossem do ramo alimentar passassem para o piso de cima, enquanto os negócios do ramo alimentar viessem para o rés-do-chão. “Não houve solidariedade entre eles e não chegaram a acordo”, refere a autarca.Reconhecendo que existe concorrência entre o “Minipreço” e lojistas, e perante a situação que se está a criar, a responsável pela JFAN admite procurar minimizar esse efeito. E dá um exemplo: a Junta de Freguesia opõe-se a um pedido do Minipreço para abrir o seu espaço às 08H00, uma hora mais cedo do que actualmente. Os outros lojistas podem abrir às 07H00. À noite, o encerramento do mercado é às 23H00, embora o Minipreço feche mais cedo.Em todo o caso, Ana Gaspar afirma que “a concor-rência sempre existiu e o mercado manteve-se”. “As pessoas não estavam a ir ao mercado antigo”, refere a autarca, acrescentando que os lojistas “devem reequacionar os seus horários”, aludindo ao final do dia, “porque se as lojas já estiverem fechadas quando as pessoas vão ao mercado, depois do regresso dos empregos, irão ao Minipreço”.

Encargos agravam

Ana Gaspar lembrou que os lojistas beneficiaram de um período de isenção relativamente ao paga-mento de rendas, que findou em Novembro de 2018. A reposição destes encargos pode também explicar as dificuldades que atravessam alguns lojistas. Quanto a um substituto para a padaria, o espaço deixado vago em Julho será sujeito a concurso pú-blico, “nos termos legalmente previstos”, referiu-nos Ana Gaspar, presidente da Junta de Freguesia.

JORGE ALVES

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