Em Abril comemora-se o centenário sobre a Batalha de La Lys, na região da Flandres Francesa que marcou negativamente a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial. Por isso referimos a Avenida dos Combatentes, uma das principais artérias da freguesia.

Em Abril passam cem anos sobre a Batalha de La Lys, na região da Flandres francesa, que marcou negativamente a participação de Portugalna Primeira Guerra Mundial. A 9 de Abril de 1918, os exércitos alemães infligiram uma pesada derrota às tropas portuguesas, constituindo o maior desastre militar português depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.

A frente de combate com uma extensão de 55 quilómetros,entre as localidades de Gravellee de Armentières, era guarnecida pelo 11.º Corpo Britânico (64000 homens) e compreendia a 2.ª divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), constituída por cerca de 20000 homens, dos quais pouco mais de 15000 estavam nas primeiras linhas, comandados pelo general Gomes da Costa. 

Em território francês, existem, pelo menos, dois monumentos à participação nacional: o Cemitério Militar Português de Richebourg, Pas-de-Calais, onde estão sepultados 1831 soldados portugueses; e o Monumento de La Couture, de autoria de António Teixeira Lopes, com o famoso Cristo das Trincheiras. Ainda hoje há quem procure familiares mortos ou desaparecidos no campo de batalha, para onde os portugueses foram enviados.

Divisões políticas 

A intervenção de  Portugal na Grande Guerra provocou uma acesa polémica política, pois já em Julho de 1914 começaram os primeiros conflitos militares entre as tropas portuguesas e alemãs a norte de Moçambique, o que se reflectiu naturalmente na imprensa do país. Por outro lado, Portugal vivia um período de intensa instabilidade politico-social. 

Segundo Nuno Sotto Mayor Ferrão, “espelho das divergências relativas à intervenção portuguesa no conflito mundial foi o fosso que se abriu entre os apoiantes, da posição favorável à entrada na guerra, que se encontravam sobretudo no Partido Democrático e no Partido Evolucionista e que contava com o apoio político de figuras proeminentes como Afonso Costa, João Chagas, José Norton de Matos e Bernardim Machado e do outro lado estavam outras forças partidárias e figuras prestigiadas favoráveis à posição de neutralidade como o generale ministro Alfredo Freire de Andrade, Sidónio Pais e Manuel de Brito Camacho”.

Segundo o mesmo especialista, “algumas correntes, políticas, antagonistas das decisões republicanas ou do Partido Democrático como o Partido Unionista, facções socialistas, os monárquicos e os católicos sustentaram uma posição de neutralidade”. Não obstante, a 23 de Novembro de 1914, o Congresso da República autoriza Portugal a intervir ao lado dos Aliados.

Esta posição foi apoiada por um movimento que ficou conhecido por “União Sagrada” constituída pelo Partido Democrático, o Evolucionista, o Unionista e o Socialista. Para esta posição contribuiu a invasão pela Alemanha de áreas fronteiriças das então províncias ultramarinas de Angola e Moçambique. Mais tarde, entre 1917 e 1918, os Unionistas e os Monárquicos defenderam o abandono de Portugal da Guerra. Para Nuno Ferrão, “os monárquicos sustentaram a neutralidade na Guerra, talvez por essa ser uma decisão essencialmente republicana que geraria muitos sofrimentos e inegáveis dispêndios financeiros”.

Imprensa censurada

Ainda segundo Nuno Ferrão, “a imprensa republicana, de forte implantação urbana, defendeu na sua maioria a tese intervencionista, enquanto a imprensa monárquica com redutos sobretudo nas províncias susteve a tese de neutralidade”. Durante o período de guerra, foi instituída a censura e não houve liberdade de imprensa entre 1917 e 1918. Do lado intervencionista, alinhavam a “Ilustração Portuguesa”, “O Século”, “A Capital”; a favor da neutralidade, publicavam-se o “A Monarchia” e “A Lucta”, órgão do Partido Unionista dirigido por Manuel Brito Camacho.

Em 1917, foi publicada em Paris a revista “Portugal na Guerra”, dirigida por Augusto Pina. De acordo com Nuno Ferrão, “esta publicação, quinzenal ilustrada, é uma fonte inesgotável para compreender algumas dificuldades atravessadas pelas tropas portuguesas na Flandres”.

Homenagem na freguesia

Os combatentes são homenageados numa das principais artérias da cidade que faz fronteira na nossa freguesia com a de Avenidas Novas e Alvalade. Avenida dos Combatentes, de seu topónimo, trata-se de um dos extremos do corredor entre o Campo Grande e Alcântara, sendo um dos principais acessos entre o centro da cidade e os concelhos limítrofes a norte.

Actualmente, tem acesso directo à Avenida Calouste Gulbenkian, não se tendo de circundar a Praça de Espanha para entrar na avenida. A meio, atravessa as linhas de Sintra e de Cintura num viaduto e acede ao Bairro do Rego e ao Hospital Curry Cabral. Tudo começou em 1938, quando a Liga dos Combatentes solicitou à Câmara de Lisboa a atribuição da denominação de «Combatentes da Grande Guerra» a um largo, praça ou avenida da capital. A proposta ficou no papel 33 anos, muito por falta de “arruamento considerado condigno para o efeito”.

Finalmente, em edital municipal de 15 de Março de 1971 foi atribuída topónimo Avenida dos Combatentes à Avenida que era prolongamento da Avenida António Augusto de Aguiar e hoje percorre as Freguesias das Avenidas Novas, São Domingos de Benfica e Alvalade. A ideia foi englobar “todos os combatentes. incluindo os da Guerra Colonial que já decorria há 10 anos”. Não obstante a demora, o processo de atribuição chegou a ser analisado sucessivamente nas reuniões da Comissão Municipal de Toponímia de 11 de Novembro de 1955, 4 de Maio de 1956 e 21 de Janeiro de 1958, sem efeitos práticos aguardando “oportunidade de novas artérias”.


A Liga dos Combatentes insiste


A liga dos Combatentes voltou a insistir, sugerindo para o efeito a Avenida do Aeroporto ou o troço da Avenida Almirante Reis, entre a Praça do Chile e a Praça do Areeiro, a que a Comissão na sua reunião de 15 de Outubro de 1958 respondeu “que a alteração das nomenclaturas dos arruamentos referidos implicaria profundas despesas e transtornos aos proprietários e moradores dos prédios das mesmas vias públicas, além de que a Comissão, tem por norma recorrer, o menos possível a este sistema, pelo que mantém os seus anteriores pareceres, isto é, deverá aguardar-se que haja uma artéria condigna para atribuição da referida nomenclatura”.

Finalmente, na reunião de 5 de Março de 1971, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia escolheu a “avenida (em projecto) que constitui prolongamento da Avenida António Augusto de Aguiar, seja atribuído o topónimo: Avenida dos Combatentes”. É muito comum as homenagens aos combatentes em avenidas, ruas, praças, largos, travessas, becos e rotundas, por esse país fora.f

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