Natércia Freire, poetisa, ficcionista, tradutora e jornalista, teve uma importante actividade cultural enquanto responsável do suplemento “Artes e Letras” do “Diário de Notícias”, no qual promoveu novos autores, ou já consagrados, de várias tendências estéticas e políticas.

Numa época em que não era comum uma mulher assumir protagonismo, Natércia Ribeiro de Oliveira Freire, conhecida literariamente por Natércia Freire, conseguiu durante vinte anos (entre 1954 a 1974) coordenar a página “Artes e Letras” do “Diário de Notícias”, dirigido por Augusto de Castro”. Neste suplemento, de grande independência editorial, colaboraram escritores e artistas plásticos de todos os quadrantes, nacionais e estrangeiros. Vergílio Ferreira, Agostinho da Silva, Urbano Tavares Rodrigues, David Mourão-Ferreira, João Gaspar Simões, Domingos Monteiro, José Régio, Sophia de Mello Breyner, Jacinto Prado Coelho, Jorge de Sena, Natália Correia, Álvaro Ribeiro, José Marinho, António Quadros, Orlando Vitorino, Afonso Botelho, são algumas das personalidades que deram à estampa artigos de índole diversa.

Luis Amaro, em carta dirigida a Eduardo Lourenço, confessa: “não será mau, também, que a N.[atércia] saiba que o seu declarado «direitismo» desagrada aos escritores…, embora a N.[atércia] tenha feito algo por eles, na página referida, e tenha, como Poeta, alto merecimento. Lembro-lhe, aliás, que o G.[aspar] Simões (a quem podem acusar de tudo menos de pactuar com as direitas) é colaborador semanal, e que o nosso Jorge de Sena também lá tem colaborado bastas vezes: e o Ramos Rosa e tantos outros, incluindo este seu obscuro amigo”.

Segundo Natércia Freire, o “Artes e Letras” foi uma iniciativa que “dava resposta a todas as gerações”. “Uma transfusão de almas”, segundo a poetisa. Não obstante, a jornalista não viu realizado um sonho: a publicação em livro de todo o suplemento.

Trinta anos de isolamento

Desde os anos 40 que Natércia Freire já assinava uma rubrica semanal na Emissora Nacional, bem como exercia uma larga actividade como conferencista. Natércia Freire foi conselheira cultural de diversos programas da Emissora Nacional e organizou as “Tardes Poéticas” no Teatro Nacional, em 1962. Para além do “Diário de Notícias”, a poetisa colaborou em publicações diversas (Atlântico, Ocidente, Acção, Portucale, Vida Ribatejana, entre outras) e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Entre 1971 a 1974, foi membro da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian que seleccionava livros para as famosas Bibliotecas Itinerantes.

A partir de 1974, retirou-se da vida literária e social iniciando um processo de isolamento até ao fim da sua vida. Não obstante, ainda assinou alguns artigos de opinião no “O Tempo” e “O Século”, e publicou poesia em várias revistas e jornais. Desde 1980, participou no júri do Prémio Literário da Fundação Oriente. Sempre discreta, para a poetisa os grupos políticos não limitavam o seu trabalho de divulgação da literatura portuguesa, que comungava com os intelectuais do seu tempo.

Depois da revolução “25 de Abril”, Natércia Freire acabou por cair no silêncio. Não obstante, deixa um legado poético que merece ser atendido.

Da música para a poesia

A escritora portuguesa nasceu em Benavente (1920), Ribatejo. Ainda criança muda-se com a família para Lisboa. Em 1932 acaba o liceu. Dois anos antes morrera-lhe o pai, dois anos mais tarde conhece José Isidro dos Santos, com quem namora e acabará por casar. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Em 1944, foi professora na Escola Primária da Póvoa de Santa Iria, enquanto iniciava a sua colaboração com a “Panorama”.

A música foi uma das suas actividades iniciais, tendo composto “Canção quimérica, “Álbum de canções portuguesas” e “Volta meu amor!”. Por influência de José Osório de Oliveira, seu mestre literário, abandonou a composição musical e dedicou-se à Poesia. Editou o seu primeiro livro, “Castelos de Sonho”, em 1935, seguido de “O Meu Caminho de Luz” (1939). Da sua vasta obra destacam-se ainda “Horizonte Fechado” (1942) e os contos de “A Alma da Velha Casa” (1945). Entre 1991 e 1995 editou a sua obra poética completa sob a chancela da Imprensa Nacional/ Casa da Moeda. Os seus trabalhos poéticos encontram-se traduzidos em francês, inglês alemão, italiano e espanhol.

Para Natércia Freire, “o tempo não tem tempo e o poeta é um visitado, um inspirado pelo Espírito”.

Prémios e distinções

Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por “Rio Infindável” em 1947 e “Anel de Sete Pedras” em 1952) e Ricardo Malheiros (por “Infância de que nasci”, 1955). Em 1971 vence o Prémio Nacional de Poesia com “Os intrusos” ex-aequo com David Mourão Ferreira. Em 1964 recebe a “Médaile D`Or de Mérite National Français” e em 1966 o “Diplôme D`Honneur da Academie de Jeux Floraux de Loine-Ocean”.

A Câmara Municipal de Benavente criou o Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire. A Câmara Municipal de Benavente, com o patrocínio da Companhia das Lezírias e a colaboração da Associação Portuguesa de Escritores, instituiu em 2005, o Prémio de Poesia Natércia Freire, em sua homenagem.

Faleceu a 17 de Dezembro de 2004 em Lisboa, o seu corpo esteve em câmara-ardente no Mosteiro dos Jerónimos e encontra-se no cemitério da Ajuda. O seu espólio foi doado à Biblioteca Nacional de Portugal no dia 6 de Junho de 2006. Este espólio é composto por vários documentos pessoais da escritora, entre manuscritos das suas obras, algumas das quais inéditas, vasta correspondência recebida, fotografias, documentos biográficos e um conjunto significativo de manuscritos de vários intelectuais portugueses e estrangeiros.f

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