Sebastião Rodolfo Dalgado foi um sacerdote católico, missionário, orientalista, académico e professor universitário, que se distinguiu como linguista e etimologista no estudo da influência do português nas línguas do sueste asiático. A sua obra é desconhecida do geral dos portugueses, mesmo entre os que fazem da lusofonia a sua bandeira.

Sebastião Rodolfo Dalgado, conhecido por Monsenhor Dalgado, nasceu em Assagão, hoje Assagaum, Bardez, em Goa, a 8 de Maio de 1855. O futuro linguista foi oriundo de uma família brâmane católica que depois da conversão ao cristianismo tinha alteradoo o apelido de “Desai” para “Dalgado”.

Sebastião foi o segundo filho de Ambrósio Dalgado, um proprietário rural com terras em Bardez, e de Rosa Florinda de Souza, entre seis irmãos e uma irmã, alguns dos quais se notabilizaram, como foram os casos de Daniel Gelásio Dalgado, que foi médico director dos serviços de saúde do principado de Sawantwadi e notável botânico; Patrocínio Dalgado, oftalmologista, e Eduardo Dalgado, advogado em Lisboa.

Depois dos estudos elementares em Assagaum, Sebastião Dalgado concluiu os estudos secundários em Mapuçá e entrou para o Seminário de Rachol (Raitur), onde foi ordenado padre em 1881. Considerado o melhor aluno do seu curso, seguiu para o Seminário de Santo Apolinário, em Roma, no qual se doutorou em Direito Canónico e Direito Romano. Devido ao seu saber, foi autorizado a apresentar provas de doutoramento,com dispensa de curso, em Sagrada Teologia. O seu brilhantismo e distinção académicos fizeram com que, em 11 de Outubro de 1884 (com 29 anos), o Papa Leão XIII o nomeasse seu Capelão Honorário e lhe outorgasse o título de “Monsenhor”.

Como era do interesse do Papa melhorar o estado do clero indiano, foi por sua sugestão que o agora Monsenhor Dalgado deveria regressar à Índia, tendo sido nomeado missionário régio. O Patriarca das Índias Orientais, Dom António Sebastião Valente, designou-o inspector dos seminários e escolas do Padroado do Oriente e professor de Sagradas Escrituras e Direito Canónico no Seminário de Rachol. Desempenhou ainda funções de desembargador da Relação Eclesiástica de Goa.

Posteriormente, foi vigário-geral da ilha de Ceilão e superior da missão portuguesa na cidade de Colombo, abolida pela Concordata de 1886, e depois em Calcutá, onde fundou uma escola para raparigas e um dispensário para os pobres em Nagori, e Dacca, então no Bengala oriental. Entre 1893 e 1895, foi vigário-geral em Honnawar, Karnataka, servindo uma comunidade de língua concani e canaresa.

Também esteve algum tempo em Sawantwadi, com seu irmão médico, Gelásio Dalgado. Quando foi vigário geral de Ceilão rejeitou a mitra de bispo que a Congregação de Propaganda Fide lhe oferecera.


Defensor do Conani

O contacto com diversas comunidades linguísticas, assim como o profundo conhecimento do sânscrito, permitiu-lhe adquirir o domínio de várias línguas indianas, nomeadamente malaiala, canarês, tâmil, cingalês e bengali. Durante estes anos, compreendeu as semelhanças entre a sua língua natal, o Concani, e o Sânscrito, o que o levou a investigar cientificamente a estrutura e vocabulário do vernáculo.

Desta investigação surgiu em 1893 o seu “DiccionarioConcani- Portuguez” que foi publicado em 1893, em Bombaim. Durante a sua permanência no Ceilão, escreveu vários sermões e homilias no dialecto indo-português do Ceilão que inclui no seu trabalho “Dialecto Indo-Português de Ceilão”, publicado em 1900 nas Contribuições da Sociedade de Geografia de Lisboa, no âmbito da comemoração do centenário do descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia.

Dedicação ao estudo da língua

No seguimento do “Diccionario Conanni-Portuguez”, as autoridades lisboetas encomendaram-lhe, em 1895, o “Dicionário Português-Konkani”, publicado em 1905. A fim de supervisionar a impressão do livro, Dalgado regressou a Lisboa, e no mesmo ano foi eleito Membro da Sociedade de Geografia, tendo no ano seguinte sido nomeado Membro do Instituto de Coimbra.

Em 1905, Dalgado foi eleito Prelado Doméstico do Papa. Entretanto, o Governo de Lisboa isentou-o do serviço de missionário no Oriente, tendo-se dedicado, a partir de então, quase exclusivamente ao estudo do Sânscrito e de Filologia, aprendendo entretanto Alemão, Árabe e Persa.

Atendendo aos seus conhecimentos foi nomeado, em 1907, professor da cadeira de Sânscrito do Curso Superior de Letras, transitando depois para o corpo docente fundador da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando, em 1911, aquele curso foi integrado na Universidade de Lisboa, criada nesse ano.

Ainda nesse ano, foi eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e recebeu o título de Doutor em Letras, que lhe foi conferido pelo Conselho da Faculdade de Letras de Lisboa como consagração ao seu saber e inteligência. Com a saúde debilitada, pois sofria de diabetes, e limitado na sua mobilidade por lhe terem sido amputadas os membros inferiores, passou a leccionar em casa, onde era visitado pelos seus alunos interessados nas suas lições.

Também manteve a celebração diária da missa, o que fazia na sua cadeira de rodas por autorização especial das autoridades religiosas. Quando faleceu em Lisboa, a 4 de Abril de 1922, as suas exéquias fúnebres mostraram o seu prestígio. Estiveram presentes o Patriarca de Lisboa, o Núncio Apostólico em Lisboa, o Ministro da Instrução Pública e representantes das faculdades e academias de Lisboa. O elogio fúnebre foi pronunciado pelo cónego José de Santa Rita e Sousa, professor da Escola Superior Colonial, onde leccionava a cadeira de Língua Concani.


Honras e distinções

Como reconhecimento da sua obra, em 1904 recebeu as honras de capelão honorário do Papa extra urbem, com direito ao uso do título de Monsenhor. Foi sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa (1895), membro do Instituto de Coimbra (1896), Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1917), sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (1911) e seu membro (1922) e membro da Royal Asiatic Society de Londres (1921).

Em 1922, a Academia de Ciências de Lisboa, à qual legou os cerca de 300 documentos que constituem o Fundo Monsenhor Dalgado, admitiu-o a título póstumo como seu membro. Em 1955, os Correios do Estado da Índia emitiram um selo postal de 1 real comemorativo do centenário do nascimento de Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, acompanhado por um postal ilustrado concordante, contendo a sua fotografia.

Em 1989, foi criada em Panaji a “Dalgado Konknni Akademi”, uma academia destinada a promover o uso da língua concani na sua forma de escrita utilizando o alfabeto latino (a Romi lipi Konkani). A Dalgado Konkani Academi estabeleceu o Monsignor Sebastião Rudolfo Dalgado Award destinado a premiar anualmente acções que favoreçam o uso e o estudo do concani.


Enquanto filólogo e linguista, monsenhor Dalgado era considerado um dos mais importantes especialistas na área da influência do português no Oriente. A par de Shenoi Goembab e Cunha Rivara, é considerado um dos pioneiros da defesa da língua concani. Monsenhor Dalgado elaborou ainda uma gramática de Concani que não chegou a terminar e cujo manuscrito foi doado à então Biblioteca Pública de Nova-Goa (actual Biblioteca Central de Pangim).


Segundo Dalgado, “a influência de Portugal no Oriente não tem sido até hoje devidamente apreciada num conjunto, em toda a sua extensão e em toda a sua intensidade”.
Para além dos aspectos políticos, sociológicos ou económicos, “a acção civilizadora de Portugal nos seus antigos domínios e nos povos com que esteve em contacto foi, em vários sentidos, muito dilatada, muito funda e muito duradoura, do que ainda presentemente há vestígios numerosos e evidentes, e argumentos irrefragáveis”.


Para o filólogo, “é sobretudo pela influência que a língua portuguesa exerceu, e ainda exerce, em grande parte da Ásia que se aquilata o alto valor da acção civilizadora de Portugal, toda especial e sem paralelo”.f

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