A criação de uma ciclovia na Avenida Defensores de Chaves reanimou o debate sobre este tema entre moradores, comerciantes e agentes políticos da freguesia. Aquela artéria passou a ter só uma faixa de rodagem e a ciclovia foi pintada a verde logo depois do estacionamento longitudinal junto aos passeios. Os moradores e comerciantes desesperam com o agravamento do congestionamento de trânsito e o aumento da poluição sonora nesta via. José Toga Soares, presidente da Associação de Moradores das Avenidas Novas (AMAN), considera que  a referida ciclovia “é uma perfeita aberração”.  Para a Câmara de Lisboa, a solução encontrada é adequada ao tráfego da via e aumenta a segurança de todos os seus utentes , sejam automobilistas, ciclistas ou peões.

• O tema foi debatido na reunião pública de 30 de Outubro da Câmara Municipal de Lisboa (CML) por iniciativa de Nuno Correia da Silva (CDS), que questionou a racionalidade e a utilidade daquela ciclovia que tem vindo a dificultar a vida de quem passa ou mora na Avenida Defensores de Chaves. O vereador considerou que a ciclovia foi implementada à revelia das populações e numa perspectiva fundamentalista da CML que considera o “automóvel inimigo da cidade”.
Miguel Gaspar, vereador com o pelouro da mobilidade, refuta as acusações, lembrando que aquela ciclovia está incluída no plano da CML há muito tempo sem ter sido questionada pelas forças políticas.
O autarca justifica a existência da ciclovia porque serve melhor a zona entre o Instituto Superior Técnico e o Campo Pequeno, destinada ao tráfego local e de bairro, sendo uma “redundância” à ciclovia da Avenida da República, que é estruturante e tem sido bastante utilizada.
O vereador recorda que tudo foi feito em articulação com a Junta de Freguesia e que não teve objecções por parte da Associação Vizinhos das Avenidas Novas, cuja grande preocupação se prendia com a eventual diminuição de estacionamento na zona. “A solução implementada não retirou um único lugar “, garantiu Miguel Gaspar, acrescentado que é adequada ao tráfego daquela artéria da freguesia, assim como é uma medida de acalmia de trânsito. “A avenida está melhor ordenada e menos sujeita a situação de estacionamento de segunda fila e com atravessamentos pedonais mais seguros” referiu. Por outro lado, a intervenção beneficia o comércio porque que os ciclistas passem devagar à porta dos estabelecimentos sendo uma oportunidade para o comércio”.
A obra camarária resultou no reperfilamento da via: passeio, estacionamento longitudinal, ciclovia e faixa de trânsito. Foram instalados balizadores, vulgo pilaretes, nos cruzamentos e a ciclovia foi pintada de verde na faixa de rodagem. Segundo a CML, esta solução permite a circulação de veículos de emergência que podem utilizar a ciclovia que impede agora a segunda fila de estacionamento.
 
A ciclovia na prática
Não obstante estas considerações, já circulam nas redes sociais fotografias de estacionamento em segunda fila em cima da ciclovia, assim como já se observou que em alguns cruzamentos veículos pesados registam dificuldades em fazer a curva. 
Os moradores consideram a solução da CML inconcebível e reveladora de falta de bom senso: “esta é uma das artérias mais movimentadas com várias escolas na zona. Em hora de ponta já era um caos, situação que foi agravada”.
Outro residente optou pelo comentário mais humorístico: “agora, tomamos café ao som de buzinas”, tal a poluição sonora que a pouca fluidez de trânsito provoca. “O ruído sonoro nunca pára. Estar a tomar café ao som de buzinas é uma constante ”, queixa-se um deles.
A solução da CML agravou as condições da via: “o problema já não é só o trânsito – que aumentou -, mas a facilidade com que se bloqueiam ruas que antes não eram fáceis de bloquear quando não havia trânsito”.
Alguns ciclistas salientam que a ciclovia não é segura, dado os congestionamentos de trânsito e os obstáculos (veículos parados), preferindo utilizar a da Avenida da República, “bem mais segura”. Finalmente, os moradores e comerciantes lamentam que não se tenha aproveitado para melhorar os passeios da Avenida Defensores de Chaves, que “continuam num estado lamentável”.
 
Uma aberração
José Toga Soares, presidente da Associação de Moradores das Avenidas Novas (AMAN), considera também que a referida ciclovia “é uma perfeita aberração”. Este morador afirma que se devia ter tido a “coragem política de requalificar toda a avenida, construir a ciclovia na placa central, alargar os passeios e reperfilar o estacionamento”. Esta solução, “perfeitamente plausível e equilibrada” segundo o presidente da AMAN, conseguia “agradar a todos”. Este responsável defende também uma solução idêntica para a Av. 5 de Outubro.
Faltam ciclovias
Na opinião de Toga Soares, fazem falta mais ciclovias na freguesia, “mas em condições de segurança”. “Seria bom que a CML privilegiasse mais a posição dos moradores e da sociedade civil, antes de tomar qualquer decisão”.
O presidente da AMAN esclarece que defende a mobilidade suave, mas “é contra as ciclovias colocadas na estrada, entre o estacionamento e a faixa de rodagem, bastando que um automobilista incauto abra a porta do carro para acontecer um acidente”. Também as ciclovias no meio da estrada têm a sua reprovação, “não pelo automobilista, mas por causa da integridade física de quem está numa trotinete ou bicicleta”, refere.
Igualmente favorável às ciclovias em geral é a Divisão de Trânsito da PSP de Lisboa, “porquanto a sua existência diminui, regra geral, a sinistralidade deste tipo de veículo atendendo à sua vulnerabilidade, tratando-se de um meio de transporte ecológico em crescente evolução e que privilegia o ambiente”.
Segundo a instituição, “já a sua coexistência com os peões e especificamente a intersecção das ciclovias com as zonas pedonais e passadeiras de peões, é um ponto sensível que tem vindo a ser alvo de cuidada apreciação por parte das entidades gestoras das vias, em concreto a Câmara Municipal e Juntas de Freguesia”.
Actualmente, as zonas mais propensas a acidentes envolvendo trotinetes e bicicletas são as ciclovias de maior tráfego, nomeadamente a Av. Fontes Pereira de Melo, a Av. da República e a Av. Duque d’Ávila.
Fiscalização negligente
Muitos moradores têm vindo a criticar estes meios de mobilidade suave por causa do seu uso indevido: excesso de velocidade, circulação selvagem na via pública e em contramão, abandono dos veículos de qualquer forma e em lugares impróprios, provocando muitas vezes transtornos aos peões, são algumas das queixas.
Segundo Toga Soares, a Polícia Municipal (PM) é “totalmente negligente” face ao uso indevido de trotinetes e bicicletas nas Avenidas Novas, acrescentando que “a associação tem recebido queixas”. Segundo afirma, “as trotinetes estão classificadas no Código da Estrada como equiparadas a velocípedes sem motor, pelo que terão de circular em ciclovias quando existam”. Não obstante, assiste-se a uma utilização “totalmente negligente” destes veículos na freguesia, muitas vezes nos passeios. No caso das bicicletas, os adultos podem fazê-lo se for para acompanhamento de menores de 12 anos, “mas não é para andarem a 40 quilómetros/hora, como já assisti”, refere. Confrontada com a acusação, a PM recorda que em Lisboa a fiscalização de trânsito é uma competência sua partilhada, em alguns casos, com a EMEL.
Fonte próxima desta autoridade, considera que não é possível ter “um agente em cada esquina” e que as fiscalizações nas ciclovias são “aleatórias”, tendo em vista permitir a mobilidade das pessoas. Refere que a capacidade fiscalizadora da PM não tem sido acompanhada pelos cidadãos em termos de cidadania.  A falta de formação cívica das pessoas para circularem na estrada e consciencialização da população são também apontadas como causas do uso indevido do espaço público.f
JORGE ALVES

 

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