De acordo com especialistas contactados por um grupo de moradores do Bairro da Bela Vista que discordam do plano de habitação que a Câmara Municipal de Cascais (CMC) pretende construir nas imediações daquela zona residencial, o projecto de “quarteirão aberto em U com orientação a sul”, da autoria do arquitecto Gil Correia Nunes de Menezes Cardoso, “interrompe a circulação de ventos e vai produzir alterações climáticas na região com implicações nas características do Vinho de Carcavelos”.
• Como o jornal “FREGUÊS DE CARCAVELOS E PAREDE” noticiou, os moradores entregaram uma petição pública com 567 assinaturas que vai ser discutida na Assembleia Municipal. Os subscritores lembram que a Quinta da Bela Vista se situa na região demarcada do Vinho de Carcavelos, “implicando a preservação das vinhas e do investimento já realizado que se encontra dependente da manutenção de um corredor de vento que será bloqueado pelo edifício projectado”.
João Alves, um dos peticionários, afirma que “por se tratar de uma zona muito próxima do mar se não houver um arejamento adequado das vinhas da Estação Agronómica de Oeiras, uma considerável variedade de doenças como, por exemplo, o  Míldio e o Oídio, pode reduzir ou mesmo aniquilar as vinhas em questão, devido à acumulação de humidade permanente, ambiente ideal para a propagação deste género de fungos”. Segundo os moradores, o túnel de vento, entre os edifícios já existentes, tem como função o arejamento e secagem das vinhas.
Os moradores defendem a elaboração de um estudo de impacto ambiental, tendo em especial consideração que o projecto vai pôr em causa a qualidade de parte dos vinhos generosos de Carcavelos”.  Quando questionado o executivo camarário sobre este tema, durante a sessão pública de 17 de Setembro, o seu presidente, Carlos Carreiras, ignorou a questão.
 
Questão política?
O eventual impacto negativo do projecto de habitação municipal de Cascais na vinha de Carcavelos, não passa de uma “questão política, mais do que técnica, levantada por um conjunto de moradores”, segundo uma fonte ligada à produção do Vinho de Carcavelos. No caso de o projecto do Bairro da Bela Vista gerar alguma influência negativa na vinha da Quinta do Marquês, “o que não é provável”, assinala, “só afectaria cerca de cinco hectares de vinha, precisamente a mais antiga e menos produtiva”. Para a mesma fonte, a poluição causada pelo fluxo de trânsito que circula na Av. Marginal e na A5 “é muito mais preocupante”.
CMC: terreno loteado há anos
Contactada pelo “FREGUÊS CARCAVELOS E PAREDE”, a CMC avança com uma nota prévia aos seus esclarecimentos: “As vinhas no concelho de Cascais estiveram anos em grande risco e as que existem foram recuperadas pela autarquia”. O município sublinha que “Cascais está a desenvolver um plano de habitação a preços acessíveis na zona de Sassoeiros”, precisando que “o projecto vai nascer num terreno loteado desde 1998 – ou seja, está há mais de 20 anos previsto para habitação”. “Sendo um terreno municipal, que nunca seria deixado à especulação imobiliária, como muitos desejavam, foi destinado a jovens e famílias que procuram casa e não o conseguem por via da especulação”, destaca uma fonte da CMC que precisa: “será uma resposta de habitação de qualidade”.
A CMC garante “não conhecer os “especialistas” que vaticinam eventuais malefícios causados pela execução do Projecto de Habitação Municipal previsto para a Quinta da Bela Vista e garante que “nunca contactaram o município”. “Quanto ao rumor que é levantado, como tantos outros postos a circular de cada vez que se inicia uma obra importante para as pessoas, à CMC nunca foram apresentados dados objectivos nem factos científicos que suportem aquela suposição”, revela a autarquia.
No que diz respeito à de produção de Vinho de Carcavelos desenvolvida pela edilidade cascalense, a CMC recorda que “neste mandato, foi concretizada a compra do Mosteiro de Santa Maria do Mar, espaço para o qual estão pensadas residências literárias, universitárias e um perímetro para a preservação da Vinha de Carcavelos”. 
O município assinala, também, a inauguração de uma vinha comunitária na Bela Vista, “que tem sido um sucesso tremendo entre moradores, mantendo a tradição vitivinícola de Cascais”.
De acordo com Carlos Carreiras, “não há razões nenhumas, do ponto de vista legal ou ambiental, para recuar numa matéria fundamental para Cascais como a oferta de habitação para os munícipes”.
Contactada pelo “FREGUÊS DE CARCAVELOS E PAREDE”, a Confraria de Enófilos do Vinho de Carcavelos, criada em 2009 com o propósito de desenvolver acções de promoção, divulgação, valorização e defesa do Vinho de Carcavelos, prefere não se pronunciar relativamente aos eventuais efeitos negativos causados na Vinha da Quinta do Marquês pela construção da nova urbanização no Bairro da Bela Vista.f
 LUIS CURADO
 

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