António Arroio foi um engenheiro, político, crítico de arte e professor que se notabilizou pela defesa das escolas técnicas e a sua integração nas comunidades. Patriota, defendeu a música como expressão da unidade moral do povo.
 
● António José Arroio nasceu a 19 de Fevereiro de 1856, no Porto, num ambiente familiar imbuído do espírito artístico e cultural que dominava nas tertúlias portuenses. O seu pai, José Francisco Arroio, um compositor e músico espanhol, foi o primeiro director do Teatro Nacional São João, do Porto. A tradição de participação cívica da família também continuou através de dois dos seus quatro irmãos: o político  e conselheiro João Marcelino Arroio, que esteve envolvido numa intensa polémica a propósito da queda do regime monárquico, e de José Diogo Arroio, também músico e cantor, doutorado em Química pela Universidade de Coimbra, político e professor catedrático de Química Inorgânica e director da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
António Arroio concluiu em 1878 o curso de Engenharia de Pontes e Estradas na Academia Politécnica do Porto, começando a trabalhar nas obras de construção dos caminhos-de-ferro da Beira Baixa, da Beira Alta, do Sul e do Sudoeste. Depois, ingressou no Ministério das Obras Públicas, tendo sido, entre 1881 e 1890, encarregado dos serviços de inspecção e recepção de material adquirido no estrangeiro.
Durante este período fixou residência em Bruxelas, durante vários anos, para acompanhar o desenvolvimento da encomenda de Portugal à empresa belga Société de Willebroeck, do engenheiro Seyrig, antigo sócio de Eiffel, relativa à Ponte Dom Luis sobre o rio Douro, no Porto. No seguimento dos seus relatórios para Lisboa, nos quais António Arroio revelava a sua admiração pela excelente mão-de-obra belga, composta por operários oriundos de escolas especializadas, foi encarregado pelo ministro das Obras Públicas, que tutelava o  ensino profissional, na altura muito deficiente, de visitar as escolas técnicas para recolher o máximo de informação possível para que em Portugal se pudesse seguir esse exemplo. De regresso a Portugal, integrou uma comissão, de que fazia parte o escritor Adolfo Coelho, para a criação de escolas industriais e de desenho industrial. O seu foco, levou a fundar em 1908, a Liga de Educação Nacional, assim como se envolveu no movimento “A Renascença Portuguesa”, liderado pelos filósofo Leonardo Coimbra e poeta Teixeira de Pascoaes.
Ainda em 1890, foi nomeado inspector do Ensino Elementar Industrial e Comercial, cargo que manteve até 1926, ano em que foi vogal do Conselho Superior de Obras Públicas, e que exerceu até à sua aposentação em 1928.
António Arroio foi eleito deputado às Cortes pelo círculo de Paredes na lista do Partido Regenerador em 1890. Foi vogal da Comissão Portuguesa na Exposição Universal de 1900, realizada em Paris, tendo sido responsável pelo catálogo da presença portuguesa. Após a implantação da República, foi também autor de uma das propostas rejeitadas para a nova bandeira nacional.
Apesar da sua importância, José Queiroz, um artista da época, relata que António Arroio vivia numa habitação “lavada de ares e muito soalheira” rodeado de livros, gravuras, desenhos e fotografias de ”humanos cultores das coisas belas”. Segundo o artista, o ambiente em que António Arroio vivia parecia dizer: “ Vivo, penso e sou feliz!”
 
Musicólogo respeitado
António Arroio obteve uma sólida formação musical, tendo participado no movimento artístico portuense promovido pelo seu pai e pelo pedagogo e musicólogo Bernardo Moreira de Sá (1853-1924). A sua pena crítica era temida entre os artistas. Conta-se que antes do início dos concertos o maestro avisava os seus músicos: “Cuidado! O António Arroio vai estar presente!”.
A passagem do político por Bruxelas permitiu-lhe conviver com intelectuais e artistas belgas. Entre eles, o historiador de arte Fierens Gevaert (1870-1926) e o violinista e compositor Eugène-Auguste Ysaÿe (1858-1931). Também se correspondia com a viúva do grande compositor alemão Richard Wagner, Cósima, filha de Franz Liszt. O crítico musical é apontado por alguns investigadores como sendo um dos responsáveis pela introdução da estética wagneriana no nosso País.
Quando Richard Strauss esteve em Portugal foi António Arroio quem o acompanhou. O pintor Abel Manta, pai, ainda estudante de Belas Artes, relata que ao sair um dia das aulas, no fim da manhã, viu as portas do Teatro de São Carlos, em Lisboa, abertas com grande movimento de pessoas, o que não era comum. No palco, Strauss ensaiava ao piano, perturbado com a agitação de curiosos e admiradores que aproveitavam a oportunidade para o ouvir gratuitamente. António Arroio decidiu intervir, pedindo ao músico que fizesse uma pausa. Em voz grossa e firme dirigiu-se ao público: “nem este Senhor e, muito menos, eu, temos necessidade da vossa presença aqui. Quem quiser assistir, pode ficar, quem quiser sair que saia, mas não perturbe.”
O resto do ensaio decorreu em respeitoso e profundo silêncio, só interrompido pelos aplausos dos admiradores do criador das grandes valsas vienenses.
 
O canto coral e o carácter do povo
Além da sua actividade como engenheiro, António Arroio manteve intensa actividade como conferencista e como crítico de arte, dedicando-se a géneros tão distintos como a música, a literatura, a pintura e a escultura. Os primeiros trabalhos de crítica literária e artística datam de finais do século XIX.
Em 1897, presidiu à secção de Belas Artes do Instituto Portuense de Estudos e Conferências, tendo organizado várias conferências, uma das quais proferida pelo próprio Arroio intitulada “A Música em Portugal”.
Neste âmbito, defendeu a importância do canto coral na formação do carácter português. Na sua conferência de 1 de Maio de 1909, no Teatro do Príncipe Real, em Coimbra, intitulada  “O canto coral e a sua função social” (1909),  realizada no sarau promovido pelo Orfeão Académico, em benefício das creches de Coimbra,  António Arroio defendeu a reforma educativa e sublinhou a função social do canto coral como forma de fomentar a consciência da luta social em que “a música pode servir para marcar a unidade de um povo nos actos da vida pública”. O musicólogo enunciou a sua ideia deste modo: “se o povo é uma democracia assente no princípio da igualdade, a forma mais adoptada a exprimir os seus sentimentos será a do canto coral”.
Na defesa da sua tese, o publicista, afirmou que “a evolução artística faz-se hoje no sentido do Povo”, acrescentando que é “o sentimento de unidade moral, de cooperação colectiva dentro das grandes democracias”, que faz “explodir do solo da pátria, no canto coral, como a mais adequada das formas plásticas, o símbolo estético que sintetiza esse estado superior da alma das nações”.  Para António Arroio, “sempre que há canto, é porque existe uma sociedade homogénea”. Portugal é uma “nação orfeonística”, na opinião do político.
 
Cancioneiro. obra colectiva
António Arroio envolveu-se na criação de um cancioneiro musical, de cariz popular e geográfico, tendo sido o primeiro autor entre nós a sistematizar a música de transmissão oral que circulava nos meios rurais. “Que hinos patrióticos sabe cantar o nosso povo?”, interrogava-se em 1909. Essa ignorância devia-se a uma “anarquia doce” e à “paz podre” em que o povo vegetava, esquecendo “os cantos guerreiros”. A situação da sociedade exigia uma “educação nacional” que produzisse “cantos nacionais” através da redescoberta do folclore e do abandono do fado, “de todas as canções a mais inferior”.
Assim, o musicologo tentou determinar as “leis fixas” das práticas musicais do nosso povo. O estudioso definiu quatro áreas musicais no continente sustentadas em factores naturais, como a orografia, a paisagem, o ambiente físico envolvente da região na qual prática musical documentada se inseria.
Este cancioneiro era uma obra colectiva. Arroio, quatro anos após ter levantado a proposta do cancioneiro, adiantou que: “(…) em Coimbra, numa das festas do ultimo Orfeon, eu pedi há annos aos rapazes que, lá do fundo das suas terras, trouxesse cada um, por anno, ao seu director, uma canção apenas, mas bem notada, honestamente notada; porque assim, dentro de pouco, teria o Orfeon reunido uma abundantissima colheita de themas valiosos. E parece-me ter ouvido dizer que alguma cousa se fez nesse sentido”. Uma colectânea de peças do repertório popular foi apresentada nos festivais em honra de Camões, em Paris em 1924.
 
Sinfonia à Pátria
A formação da ideia de uma “música nacional portuguesa” tinha também factores eruditos, tendo sido enunciada em diversas conferências proferidas em Lisboa, corria o ano de 1909. Também é significativa s páginas dedicadas a Viana da Mota e à sua “Sinfonia em lá maior Á Pátria”. Em 1896, António Arroio escreveu um artigo para a revista Amphion, no qual esta peça musical foi descrita como “uma página de um elevado simbolismo, uma síntese luminosa e profundamente sugestiva dum momento histórico determinado; o autor, representando o momento de crise em que a pátria parece soçobrar, fá-la resurgir de novo para uma vida gloriosa num como rejuvenescimento da alma nacional”. Segundo António Arroio, são apresentados quatro temas, correspondentes a tantas outras características nacionais, a saber: o “carácter bélico”, o “carácter levemente melancólico”, o “lirismo nativo do português” e a “a glória de uma extensa série de vitórias”. Além de uma resposta ao Ultimato, a peça sinfónica surgia como um protesto contra o insucesso dos governos regeneradores em modernizar o País.  Da sua bibliografia, constam, entre outras, as seguintes obras: “Soares dos Reis e Teixeira Lopes” (1899), “A Música de Wagner e a Arte do Canto” (1906-1907), “O Canto Coral e a sua Função Social” (1909), “O Caso do Monumento ao Marquês de Pombal” (1914) e “Singularidades da Minha Terra” (1917). Co-escreveu “Notas sobre Portugal: Exposição Nacional do Rio de Janeiro” (1908-1909) e traduziu contos franceses para a revista “A Águia”, reunidos sob o título “Os novos tempos e a literatura”.
Colaborou também em diversas publicações periódicas das quais se destacam as revistas “A Arte Musical” (1898-1915), “Serões” (1901-1911), “Brasil-Portugal” (1899-1914), “Revista do Conservatório Real de Lisboa” (1902), “A Farça” (1909-1910), “Atlântida” (1915-1920) “Pela Grei” (1918-1919) e “Homens Livres” (1923).
António Arroio faleceu a 25 de março de 1934, em Lisboa. Nesse mesmo ano, atribuíram o seu nome à recém-criada escola industrial, a Escola Industrial António Arroio de Artes Aplicadas, hoje Escola Artistica António Arroio, dedicada ao ensino secundário artístico especializado, localizada no Bairro do Alto de São João, em Lisboa.f

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